

A Geolocalização dos ovos
A recente disparada no preço do ovo, que aumentou 40% entre janeiro e fevereiro de 2025, trouxe esse alimento para o centro do debate econômico.
Houve quem correlacionasse o preço no Brasil com a alta nos Estados Unidos, mas essa hipótese pode ser facilmente descartada, pois apenas 1% da produção ovos brasileira é exportada.
A alta do ovo tem um impacto importante por estar presente em quase 100% dos domicílios.
Sua versatilidade culinária também contribui para a alta penetração, desde preparações simples do dia a dia até pratos de alta gastronomia, ovos são ingredientes essenciais em bolos, massas e outras receitas.
Adicionalmente, o consumo individual vem subindo, passando de 120 ovos/pessoa em 2007 para 241 ovos/pessoa em 2022.
Esse crescimento de 195% em relação ao padrão de meados dos anos 1990 reflete a mudança de hábitos alimentares, sobretudo como resultado da perda de poder aquisitivo das famílias, que encontram no ovo um substituto para proteínas animais mais caras, como a carne de vaca.
Produção local
Houve um tempo em que as famílias mantinham pequenos galinheiros em casa, como fonte de ovos e carne de galinha, mas hoje isso é raro.
Ainda assim, a lembrança é viva e ninguém considera que produzir ovos é um mistério, havendo diversas granjas em sítios e chácaras.
No entanto, a produção de ovos vem sendo transformada por processos industriais.
Por outro lado, algo que não mudou é importância da proximidade com os centros de consumo.
Isso acontece porque o transporte de ovos para longas distâncias pode ser bem complexo em função do cuidado no manuseio de um produto tão frágil e de sua perecibilidade quando não resfriado.
Nunca antes
Em 2022 a produção de ovos no Brasil atingiu recordes históricos, com 4,06 bilhões de dúzias produzidas (cerca de 48,7 bilhões de unidades).
A tabela abaixo mostra a produção estimada nos principais estados produtores, ajustada pelo tamanho de sua população.
Do ponto de vista geográfico, a produção de ovos no Brasil é moderadamente concentrada: os 4 principais estados (SP, PR, MG, ES) respondem por cerca de 53% da produção.
Mas alguns desses estados são também grandes consumidores de ovos, ou vendem seu excedente para estados vizinhos.
Vários ovos no mesmo cluster
A produção em escala industrial acontece em polos, que são cidades ou conjuntos de cidades otimizados para essa atividade.
São Paulo representa 30% do volume nacional, com destaque para o município de Bastos-SP, conhecido como a “Capital do Ovo”, sozinho responsável por 11% da produção brasileira
Esse cluster produtivo no interior paulista, a região de Tupã/Bastos, concentra dezenas de granjas altamente tecnológicas que abastecem mercados em vários estados e as indústrias que produzem alimentos a partir do ovo ou ovoprodutos.
Demais polos importantes incluem Santa Maria de Jetibá-ES, destaque nacional em ovos de galinha e codorna, e polos no Nordeste como São Bento do Una-PE e região de Fortaleza-CE, este último cresceu para figurar como o 5º maior produtor nacional em volume.
Em termos empresariais, a liderança de mercado é da Granja Mantiqueira, que possui cerca de 14,7 milhões de poedeiras e produz em torno de 4 bilhões de ovos por ano, representando 8% da produção nacional.
Isso mostra um mercado ainda pulverizado por produções locais de diversas escalas.
Sem concorrência com o mercado externo
Colocar ovos brasileiros no exterior envolve superar obstáculos logísticos maiores.
Os embarques para mercados distantes costumam ser via transporte marítimo em contêineres climatizados, o que pode levar semanas.
Por exemplo, o tempo de trânsito até a África do Sul chega a 20 dias por navio
Manter a qualidade dos ovos nesse período requer cadeia do frio rigorosa e coordenação logística precisa, desde o despacho aduaneiro rápido até o monitoramento das condições dentro dos contêineres.
Qualquer falha, como atrasos portuários, quebras de refrigeração pode inviabilizar a carga.
Além disso, a exportação de ovos in natura compete com a alternativa de exportar ovoprodutos processados (ovos líquidos pasteurizados, em pó etc.), que embora exijam industrialização, são menos perecíveis e mais fáceis de transportar.
Aprendizados
A logística do ovo nos ensina que, quando um produto é amplamente adotado, com alta demanda, a pressão passa para a capacidade produtiva.
O Brasil possui capacidade elevada e está em expandindo-a, mas as características de fragilidade, perecibilidade e baixo valor unitário fazem com que a produção tenha que se dar mais perto do centros de consumo.
Isso cria ineficiências em centros de consumo onde a demanda não é totalmente atendida, uma vez que, por conta dos desafios logísticos específicos do ovo, não é tão fácil levar ovos de outros centros onde a produção seja excedente.
Por conta dessa assimetria geográfica entre a oferta e a demanda, o preço sobe.