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O Geomarketing não é apenas um cruzamento entre geografia e marketing, mas um campo essencialmente moldado pela economia.
A geografia fornece o palco – a disposição dos espaços, os fluxos populacionais, a infraestrutura, mas é a economia que dita as regras do jogo: onde estão os atores, ou consumidores, qual é seu poder de compra, como a concorrência afeta a distribuição espacial dos negócios e como os custos de logística impactam as decisões empresariais.
Se pensarmos na própria origem da palavra "marketing" (mercado em ação), fica claro que não basta saber onde os clientes estão.
O fundamental é entender como e por que eles agem como agem, o que exige uma leitura econômica aprofundada.
Geografia + Economia = Geomarketing
A economia espacial, desenvolvida por teóricos como Walter Christaller e atualizada por Paul Krugman, nos ensina que os mercados não estão distribuídos aleatoriamente no espaço, mas seguem padrões estruturais influenciados por fatores como renda, infraestrutura e custos de transporte.
O Geomarketing se baseia justamente nessa lógica, utilizando dados econômicos para entender como a demanda por produtos e serviços varia em diferentes locais.
Um supermercado não escolhe um bairro apenas porque há muitas pessoas ali, ele escolhe porque há um mercado consumidor viável, que leva em conta renda per capita, comportamento de compra e concorrência local.
O processo de formação de novas geografias
Imagine que o território é um grande tabuleiro, quais seriam as regras desse jogo?
Esse é trabalho desenvolvido por Paul Claval e outros economistas da Nova Geografia Econômica.
Eles estudam as dinâmicas pelas quais as estratégias espaciais se reorganizam constantemente.
Um pouco de história
No início, a geografia econômica mapeava zonas de produção e de comércio, essa abordagem descritiva dominou até meados do século XX, com mapas que mostravam fluxos de mercadorias, cadeias produtivas e zonas industriais.
Apesar de sua utilidade, ela ignorava a dinâmica econômica subjacente.
Era como tentar entender um jogo de xadrez apenas olhando a posição das peças, sem considerar as regras que regem seus movimentos.
Nos anos 1950 e 1960, a geografia econômica sofreu sua primeira grande evolução com a Economia Espacial, autores como Von Thünen e Alfred Weber, Christaller e Lösch foram alguns dos mestres desse tabuleiro, propondo modelos matemáticos e espaciais para explicar a lógica da localização das atividades econômicas.
David Harvey, um dos geógrafos mais influentes desse período, introduziu a ideia do spatial fix — a necessidade do capitalismo de reconfigurar suas bases espaciais periodicamente para continuar crescendo.
Mais tarde, Paul Krugman levaria essa abordagem adiante, explicando como o comércio internacional e os mercados internos influenciam a localização da produção e das indústrias.
O conceito de centro e periferia
Essa teoria foi desenvolvida para explicar as desigualdades entre lugares ricos e pobres.
Sua lógica é simples, temos dois tipos de lugar:
- No "centro" (ricos-produtores), encontramos mercados produtos altamente industrializados, com capacidade de inovação tecnológica, infraestrutura avançada e mercados de consumo robustos.
- Na "periferia" (pobres-consumidores), mercados com economias dependentes de atividades primárias, com baixa agregação de valor e pouca capacidade de inovação.
Uns vendem bananas, outros smartphones.
A vantagem do centro sobre a periferia foi chamada de Economia de Aglomeração.
Em que a concentração de indústrias em certos lugares gera vantagens competitivas que tornam difícil para outras regiões romperem esse ciclo.
Imagine um grande polo tecnológico, como Florianópolis: as empresas que se instalam lá se beneficiam de redes de inovação, mão de obra qualificada e infraestrutura já existente.
Esse somatório de operações sinérgicas atrai ainda mais negócios, que buscam essa vantagem e acabam por reforçá-la.
No entanto, essa lógica pode se inverter, algumas regiões conseguem romper o ciclo de dependência e desenvolver indústrias próprias, como ocorreu no Porto Digital de Recife, uma região degradada, que a partir dos anos 2000, passou a receber investimentos para se transformar num pólo tecnológico.
Esses são exemplos de que as "novas geografias econômicas" emergem não apenas por fatores de mercado, mas por decisões políticas e estratégicas.
Conclusão
Em última instância, não há uma única geografia econômica, mas um mosaico de geografias que se sobrepõem e interagem.
A formação de novas geografias econômicas emerge da interação entre tecnologia, política, cultura e ecossistemas de inovação.
Hoje, as geografias econômicas estão sendo redesenhadas mais uma vez.
Cadeias de suprimentos globais estão sendo reestruturadas por causa de crises geopolíticas, a digitalização está criando novos centros de poder econômico, e os desafios ambientais estão forçando a economia a repensar seu modelo de crescimento.
O tabuleiro está sempre em movimento, entender essa dança complexa é o desafio que a geografia econômica.