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Como o Brasil do interior superou o das capitais
Imagine um viajante percorrendo o Brasil em 1991.
Ele começa sua jornada no centro de São Paulo, uma metrópole vibrante, o coração econômico do país, onde os edifícios comerciais dominam o horizonte e as ruas estão repletas de operários e engravatados.
Depois, segue para o nordeste, até Petrolina, no sertão de Pernambuco, onde vê um pequeno centro urbano cercado por vastas áreas secas e algumas plantações irrigadas pelo Rio São Francisco.
Descendo a oeste, já em Mato Grosso, ele encontra Lucas do Rio Verde, uma vila agrícola nascente, que mal aparece no mapa, com pouco mais de 6 mil habitantes.
Agora, imagine esse mesmo viajante refazendo o percurso em 2022.
São Paulo, apesar de seu gigantismo, pouco cresceu e enfrenta os desafios dessa estagnação.
Petrolina, por outro lado, mais que dobrou de tamanho, transformando-se em um polo agrícola global.
E Lucas do Rio Verde? Tornou-se uma potência do agronegócio, com renda média superior à de muitas capitais.
O crescimento dessas cidades não apenas desafiou as expectativas, mas redefiniu o próprio mapa econômico do país.
O que fez algumas cidades do interior brasileiro crescerem como se tivessem sido impulsionadas por um motor invisível, enquanto outras ficaram estagnadas?
A grande marcha à ré
Durante grande parte do século XX, a história do Brasil foi uma história de êxodo rural, milhões deixaram o campo para tentar a vida nas grandes cidades.
São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte absorveram imensas levas de migrantes, principalmente do nordeste.
Mas, ao final do século, essa lógica começou a se reverter.
Cidades como Sinop (MT), Luís Eduardo Magalhães (BA) e Rio Verde (GO) passaram a crescer em um ritmo que faria qualquer urbanista questionar os modelos tradicionais.
Entre 2010 e 2022, 548 municípios cresceram acima de 1,5% ao ano, e a maioria deles ficava longe das capitais.
Pessoas estavam se mudando para cidades menores e médias, não por necessidade, mas por oportunidade.
O caso de Lucas do Rio Verde é emblemático, nos anos 1980, a cidade mal existia.
Pequenos agricultores do Sul do Brasil foram atraídos pela promessa de terras férteis e baratas.
No início, foi difícil – estradas precárias, infraestrutura inexistente, mas então, algo mudou.
A explosão da demanda global por soja nos anos 2000 fez com que Lucas do Rio Verde se transformasse no epicentro de uma nova economia agrícola.
Hoje, sua população é 12 vezes maior do que era em 1991, o salário médio mensal da cidade atingiu 2,6 salários mínimos, está muito acima da média nacional.
O município exporta soja e carne para dezenas de países e abriga multinacionais do agronegócio.
Essa transformação não foi um caso isolado.
A cidade de Sinop (MT), fundada nos anos 1970, quintuplicou sua população desde 1991.
Petrolina (PE), que, de tão isolada no sertão, já foi rota do cangaço, tornou-se um dos maiores polos de exportação de frutas do Brasil.
A fórmula do crescimento
Três forças principais impulsionaram essa revolução no interior: o agronegócio, a descentralização industrial e a consolidação dos serviços urbanos.
O Agro é POP
No início dos anos 1990, a região Centro-Oeste produzia menos soja que o Sul do Brasil.
Hoje, a situação se inverteu. O avanço das tecnologias agrícolas, aliado a incentivos governamentais, transformou áreas antes subutilizadas em verdadeiros celeiros do mundo.
Lucas do Rio Verde, Rio Verde (GO) e Luís Eduardo Magalhães (BA) surfaram essa onda com perfeição.
Em cada uma dessas cidades, o crescimento do agronegócio gerou uma cadeia produtiva que atraiu trabalhadores qualificados, investimentos privados e novas oportunidades.
O ciclo foi autoalimentado: mais produção significava mais empregos, mais consumo local, mais infraestrutura.
O impacto não ficou restrito ao Centro-Oeste.
No Nordeste, cidades como Petrolina e Juazeiro (BA) apostaram na fruticultura irrigada.
Hoje, essas cidades abastecem mercados da Europa e do Oriente Médio com mangas e uvas de alta qualidade.
A renda subiu, o comércio floresceu e a população explodiu.
A indústria chega ao interior
Nos anos 1990 e 2000, as grandes indústrias começaram a procurar alternativas às metrópoles congestionadas. Cidades médias, com terrenos baratos e incentivos fiscais, se tornaram destinos atrativos.
Goiana (PE) é um caso exemplar.
Até 2010, era uma cidade de pouco mais de 70 mil habitantes, com economia baseada no setor sucroalcooleiro.
Até que a Fiat/Stellantis decidiu construir uma fábrica lá.
O impacto foi instantâneo: o PIB de Goiana cresceu mais de 20% ao ano entre 2015 e 2019, e a cidade subiu nove posições no ranking estadual de economia.
A ascensão da classe média do interior
À medida que as cidades cresceram e a renda aumentou, um novo fenômeno emergiu: o surgimento de uma classe média robusta no interior.
Nos anos 1990, se alguém quisesse comprar um carro ou um eletrodoméstico sofisticado, provavelmente teria que viajar até a capital mais próxima.
Hoje, cidades como Marabá (PA), Dourados (MS) e Sobral (CE) abrigam shoppings, concessionárias e universidades.
Essas cidades passaram a oferecer qualidade de vida comparável à das metrópoles, sem os problemas de trânsito e violência das capitais.
Mais Brasil, menos São Paulo
Enquanto isso, as capitais enfrentam desafios. São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre cresceram pouco ou até encolheram.
Primeiro, porque já estavam saturadas. O custo de vida alto, a violência e os problemas urbanos tornaram as grandes cidades menos atraentes.
Segundo, porque o crescimento econômico se descentralizou, com empregos e investimentos migrarando para onde havia espaço e oportunidades.
A diferença é gritante, enquanto Lucas do Rio Verde e Petrolina explodiram em crescimento, São Paulo cresceu menos de 20% em três décadas.
Pra frente é que se anda
A ascensão das cidades do interior foi o resultado de forças econômicas profundas, de investimentos estratégicos e de uma nova dinâmica populacional.
Essa revolução silenciosa redistribuiu o crescimento e criou novos centros de poder econômico.
Mas essa transformação vem com desafios, muitas dessas cidades cresceram rápido demais e agora precisam garantir que esse crescimento seja ordenado.
Olhando para o futuro, uma coisa é clara: o Brasil de hoje tem vetores de crescimento que apontam para novas direções.