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Marketing de trás pra frente

Em 2022, uma reportagem da National Geographic revelou algo bombástico e inédito na humanidade: passamos o pico populacional de crescimento. 

A chamada “transição demográfica”, da fase em que cada família contribuía com mais pessoas, para o equilíbrio, ou mera reposição, até o ciclo atual de possível queda no tamanho da população.

Esse é um território novo, todo o conhecimento gerado até aqui foi moldado pelo crescimento, e não pela rarefação, envelhecimento, fragmentação dos lares.

E, no Brasil, um terceiro enredo se desenrola: as famílias estão mudando mais rápido do que o imaginário das marcas consegue acompanhar: lares com filhos diminuem, casais sem filhos dobram, solitários urbanos explodem. 

Se a sequência evolutiva mudou, nossos modelos têm que mudar. 

World in data

O Marketing dedutivo começa onde o preditivo tropeça

A promessa do Marketing preditivo é a continuidade: com indicadores suficientes sobre o passado, conseguimos prever o futuro.

Mas o que acontece quando esses sinais estão enviesados, fora de contexto ou são simplesmente errados?

A Segmentação Geográfica trabalha com contextos de necessidade.

Sua a lógica é simples, sabendo que tudo mudou, quais são as necessidades imediatas e quais são as subsequentes?

Para uma pessoa que mora sozinha num apartamento alugado no centro de uma cidade densa, com 32 anos, sem filhos. 

Não é chute, é dedução.

A demografia também revela o enredo

Desde sempre, usamos a demografia como se fosse régua de audiência. 

  • Qual o tamanho da população?
  • Qual o tamanho do target? 
  • Quantos milhões de consumidores potenciais?

Quando ela se mistura com o território e com os ciclos familiares, tramas são reveladas.

Veja o Brasil, no Censo 2022:

  1. Casais sem filhos dobraram desde 2000
  2. Domicílios unipessoais triplicaram
  3. Lares com filhos pequenos recuaram fortemente
  4. Arranjos monoparentais e lares envelhecidos se tornam comuns
  5. Tudo isso se distribui de forma altamente desigual no território

Esse não é apenas um retrato social, é uma nova matriz lógica de necessidades futuras.

Com base nisso, conseguimos deduzir o que vem por aí:

Tipo de Arranjo Familiar Necessidades imediatas Necessidades subsequentes
Casais sem filhos, dupla renda Lazer, conforto, pets, viagens, upgrade de moradia Casa própria, renda passiva, filhos (talvez)
Pessoas sozinhas em áreas centrais Conveniência, mobilidade, saúde mental, segurança Crescimento profissional, viagens, relacionamentos
Famílias com crianças pequenas Crédito, plano de saúde, moradia com infraestrutura Trabalho remoto, empreendedorismo
Lares envelhecidos Serviços domiciliares, adaptação residencial, previdência Redes de suporte, comunidades, turismo
Arranjo:
Casais sem filhos, dupla renda
Imediatas:
Lazer, conforto, pets, viagens, upgrade de moradia
Subsequentes:
Casa própria, renda passiva, filhos (talvez)
Arranjo:
Pessoas sozinhas em áreas centrais
Imediatas:
Conveniência, mobilidade, saúde mental, segurança
Subsequentes:
Crescimento profissional, viagens, relacionamentos
Arranjo:
Famílias com crianças pequenas
Imediatas:
Crédito, plano de saúde, moradia com infraestrutura
Subsequentes:
Trabalho remoto, empreendedorismo
Arranjo:
Lares envelhecidos
Imediatas:
Serviços domiciliares, adaptação residencial, previdência
Subsequentes:
Redes de suporte, comunidades, turismo
Tabela não disponível nesta resolução

A Geografia faz a ponte entre sua marca e o mercado

Imagine um hexágono urbano onde vivem majoritariamente casais de 30 e poucos anos, sem filhos, com ensino superior, trabalhando remoto, em imóveis alugados. 

Você abre a Mapfry e vê esse padrão.

Em uma inversão do modelo tradicional que empilha dados comportamentais para tentar entender a intenção, o marketing dedutivo começa pela estrutura de vida.

Com isso, marcas conseguem sair do eterno 80-20 para uma visão total capaz de:

  • Prever a demanda territorial
  • Antever o ciclo de vida familiar
  • Estabelecer relacionamento duradouro
  • Enquanto outros se limitam pela performance de curto prazo

Como essa lógica muda tudo

Educação infantil

Em vez de “captar” pais interessados, você deduz onde ainda há crescimento de crianças pequenas. Planeja abertura de unidades com antecedência, se prepara para o ciclo.

Delivery e varejo de conveniência

Áreas com muitos unipessoais ou casais sem filhos têm picos noturnos, alta sensibilidade à conveniência, baixa elasticidade de preço.

Você não precisa reinventar o cardápio toda semana, precisa estar no lugar certo, com a proposta certa, para um estilo de vida previsível.

Finanças e seguros

Territórios com envelhecimento e filhos saindo de casa têm padrões claros de reorganização financeira.

Olha pra você ver

O Marketing vem de uma obsessão por sinais: “O que ele fez ontem?”, enquanto se esquece de perguntar: “Quem é ele? Que tipo de vida leva? Que mundo habita?”

A resposta está na sobreposição desses três domínios:

  1. A demografia pós-transição, que nos conta que o mundo não está crescendo, está se fragmentando, envelhecendo, mudando de forma.
  2. As famílias brasileiras, que abandonaram o modelo nuclear em ritmo acelerado e agora vivem em arranjos mais fluidos, reduzidos, urbanos.
  3. O marketing preditivo, que tem potência técnica, mas opera cego se não for alimentado com o contexto certo.

Uma tese simples e poderosa

Todo mundo sabe que IA precisa de contexto, mas antes dela, você precisa de contexto, que vem do território, da estrutura familiar, do ciclo de vida.

Esse é o papel da Geografia nos seus negócios, devolver ao Marketing o que ele perdeu no frenesi dos dados: o senso de lugar, de trama, de inevitabilidade.

Não é sobre antever desejos, mas entender necessidades que já estavam lá, prontas para serem deduzidas.

CONCLUSÃO PRINCIPAL Marketing precisa migrar do preditivo para o dedutivo porque o mundo passou a se reorganizar RAZÃO 1 Mudança demográfica estrutural global RAZÃO 2 Fragmentação familiar no Brasil RAZÃO 3 Limite do marketing preditivo Pico populacional Envelhecimento Baixa reposição Casais sem filhos ↑ Unipessoais ↑↑↑ Lares com filhos ↓ Depende do passado Assume continuidade Falha em rupturas INFERÊNCIA DEDUTIVA Se o passado perdeu poder explicativo, o ponto de partida é a estrutura de vida PRINCÍPIO DO MARKETING DEDUTIVO Quem a pessoa é, onde vive e em que fase está antes de qualquer sinal comportamental EXEMPLO – INDIVÍDUO 32 anos, mora sozinho, trabalho remoto Dedução: conveniência, mobilidade, serviços EXEMPLO – TERRITÓRIO Casais sem filhos, dupla renda Dedução: conforto, consumo noturno BASE DA PIRÂMIDE (DADOS) Demografia + Arranjos familiares Território + Ciclo de vida Dados levam a deduções, não caçam sinais

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